titanic na banheira dos outros é escuna.

E você acorda de manhã feliz de ler seu livro com uma xícara de café e automaticamente pega o celular e vê a torrente de desgraças logo cedo e lembra que não dá para ser feliz enquanto tem tanta tanta tanta gente morrendo.

Você já acorda exausta mas pensa que, se você com todos os seus privilégios de ter um teto-e-comida-e-não-ter-filhos-para-cuidar-e-entreteter e saúde (principalmente saúde), já tá fodida da cabeça, imagina só os outros. Imagina só os outros vendo você fodida da cabeça e querendo te mandar à merda porque 98% da população queria tá como você. Imagina só os médicos vendo esse monte de filhadaputa em buzinaço na frente do hospital explodindo de covid e gente, enquanto tem família chorando via-Whatsapp porque não pode se despedir da mãe-pai-tio-filho-irmão ao vivo. Ao morto. Imagina quem tá num leito (e agora até quem tem leito tem sorte) sabendo que vai ter que ser intubado e não tem nem uma mão para segurar. A mão é de latex com ar, mas cuidado com o ar que pode estar contaminado.

Se você tá reclamando de dentro da sua casa, com comida & saúde, você tem é que agradecer e não reclamar. E você agradece. Agradece de verdade. E pensa que, se tem motivos pra agradecer, devia fazer mais pelos outros que não tem pelo o que agradecer (e que ainda assim agradecem estarem vivos no meio desse trem desgovernado pilotado por um sádico comendo leite condensado), mas você não consegue. Se manter sã já tá difícil demais e você pensa que é mentira, que é frescura, que é muito pouco para quem tá na merda de verdade e você só tá usando isso de desculpa para não lidar, de verdade, com a vida. E as mortes. Tem tanta tanta tanta gente morrendo. E você escrevendo.

E é isso e não é isso e é a frase do James Baldwin, sobre muletas, na abertura do livro da terapeuta que você está lendo de manhã. Talvez você deva conversar com alguém. Talvez ela precise conversar com alguém. Que barra ser psicóloga nesse caos e ter que fingir sanidade mental para lidar com a crise alheia enquanto tem tanta tanta tanta gente morrendo.

Saudades de quando a gente se meteu a ser padeiro e se inscreveu em curso online e achou até bom poder ficar um pouco mais em casa. Saudades de quando a gente achou que ia aprender alguma coisa com tudo isso (nunca achei, mas otimista dava em árvore naquela época). Saudades de quando lançaram um aplicativo novo que ficava todo mundo se falando o dia todo, até falarem que ele era conspiração dos russos para roubar seus dados e todo mundo apagou. Tudo é conspiração dos russos. E tem tanta tanta tanta gente morrendo.

Um ano depois, seguimos em casa. Quer dizer, os otários-que-somos-nós seguimos em casa, enquanto tem filhadaputa dando festa clandestina para comemorar que foda-se a vida, porque não é a vida deles. Até ser. Tem tanta tanta tanta gente morrendo que tenho certeza que muito filhadaputa que foi em festa de milfilhasdaputa no nordeste morreu e matou um monte de gente junto.

Vi esses dias aquele meme do Titanic afundando e dos negacionistas (inveja do nível de alienação dessas pessoas que dizem que é tudo culpa da globo e dos jovens místicos que ‘torcem contra’) e acho que não tô nem tocando violino nem correndo desesperada para os botes. Tô na sala do cinema, assistindo de fora toda a desgraceira acontecendo. E vendo que tudo isso que tá acontecendo é muito muito muito triste. Tem tanta tanta tanta gente morrendo que não tem Mozart nem Vivaldi nem Carla Diaz chorando no fundo que possa amenizar.

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mezzo português, mezzo inglês, mezzo gramaticalmente preguiçosa. sou mais legal desenhando.

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